DISTRIBUIÇÃO DA RIQUEZA
Os salários e mordomias dos gestores dos hospitais triplicam no mesmo dia em que o governo anuncia novo congelamento dos salários da função pública acima dos mil euros. Só o salário base de um gestor de hospital passa a ser superior a oito mil euros, com direito ainda a carro e cartão de crédito até 30% do ordenado base. Nos hospitais portugueses morre-se e mutilam-se pessoas a toda a hora por incompetência e negligência, e o castigo ai está. O ministro da saúde diz que os aumentos são para garantir melhores gestores. Tudo isto é uma treta. Os gestores são nomeados não por serem bons ou maus mas porque são do partido ou de qualquer outra merda parecida com isso, maçonarias e comp.ª. São dos mais incompetentes da União Europeia e pagos acima da média da dita união. São inimputáveis, nunca respondem perante nada nem ninguém. Pagar estes salários num país onde a maioria das pessoas ganha menos de 500 euros por mês é uma forma de terrorismo. Portugal só pode acabar em sangue.
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2003-05-30
PEDOFILIA
Era de esperar: depois da prisão do sr. Pedroso os papagaios começaram a atirar-se ao juiz Rui Teixeira e a Pedro Namora. Enquanto a coisa andou pelo pobre do Bibi e pelo animador de massas sr. Cruz os jornais de 'referência' mal se lembraram das desgraças do segredo de justiça, das prisões preventivas, das escutas telefónicas. Desde então não passa um dia sem que editorialistas, semi-editorialistas, colunistas e até repórteres de bom senso e bom gosto - de 'esquerda', evidentemente - ataquem esses meios especiais de prova, sem os quais não há investigação que produza resultados em casos como este. É uma delícia lê-los. São pagos para isso, já se sabe. E ok, animam a malta. Passando dos papagaios para os profissionais da política: meu Deus até o sr. Sampaio achou necessário lembrar que é ele o garante do funcionamento das instituições em Portugal. Quando por uma das raras vezes neste país de merda as instituições aplicam aos nomes do regime as regras elementares do tal Estado de Direito - o primado da lei, a igualdade dos cidadãos perante a lei, a independência dos tribunais - o sr. Presidente acha de bom tom sair-se com esta. Isto depois de ter telefonado ao procurador-geral da República para se inteirar do caso Pedroso. Talvez uma boa maneira de pôr as instituições a funcionar seja tirar o processo ao juiz Teixeira, o tal das jeans e das t-shirts que tanto ofende o nosso "Público" de referência, ou começar a arrear no Pedro Namora, ou, quem sabe, silenciar os putos que ao longo de décadas foram violentados numa instituição tutelada pelo Estado e agora andam para aí a dar com a língua nos dentes.
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A MODERNA E O REGIME
Uma após outra as testemunhas no julgamento da Moderna a decorrer em Monsanto revelam que nem os quatro órgãos de soberania do regime escaparam às trafulhices da distinta família Braga Gonçalves: a presidência da República através de um membro da casa civil de Sampaio, o Governo através do ministro Portas, a Assembleia da República através de vários deputados presentes e passados e o poder judicial através do Tribunal Constitucional e do Supremo Tribunal Administrativo. Envolvidos estão também a Câmara Municipal de Lisboa através dos seus ex e actual presidentes, e ainda ex- ministros, jornalistas, empresas, etc.
Enquanto isto a srª Ferreira Leite pede sacrifícios aos portugueses, o sr. primeiro-ministro pede trabalho, trabalho e mais trabalho, os patrões pedem subsídios em sessões contínuas e o regresso à escravatura nas relações laborais e os papagaios dos media disseminam o eco do parlapié geral. E depois queixam-se do terrorismo.
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Julho de 2002
CENSURA NA GRANDE REPORTAGEM PELAS MÃOS DO POETA FRANCISCO JOSÉ VIEGAS
Duas reportagens escritas para a revista "Grande Reportagem", de que fui redactor até Novembro de 2002, entregues a 5 de Abril e 5 de Junho de 2002 e previamente combinadas com o director , Francisco José Viegas, e nunca publicadas. Sem qualquer explicação. A censura seguiu-se ao último texto que publiquei na revista, no número de Abril de 2002, sobre a manipulação dos media por Mário Soares revelada em Março por Estrela Serrano no livro "as Presidências Abertas de Mário Soares - as estratégias e o aparelho de comunicação do Presidente da República". Seguem-se as duas reportagens e o texto que o precedeu:
Titulares de cargos políticos
DECLARAÇÕES DE RIQUEZA
SEM PASSADO
Em 1983 a Assembleia da República aprovou uma lei destinada ao controlo público da riqueza dos titulares de cargos políticos. Mas os deputados punham nas mãos do Tribunal Constitucional a decisão de permitir o acesso às declarações e este continua a negá-lo. A consulta só é livre para os cargos iniciados a partir de 1995, o que torna impossível qualquer comparação com o passado.
Quase vinte anos depois de 1983 um pedido agora formulado pela GR para consultar as primeiras declarações de uma dezena de políticos e do próprio presidente do Tribunal Constitucional foi indeferido pelo colectivo de juizes conselheiros com o argumento de que não existe interesse relevante em tal consulta. Esse interesse, diz o acórdão que em Março de 2002 indeferiu o pedido, teria que ser justificado com factos concretos que o fundamentassem. Mas a definição de tais factos não existe em lado nenhum, pelo que dependerá sempre do critério do tribunal. E segundo o funcionário da 4.ª secção que tem à sua guarda as declarações a fundamentação é de tal modo difícil que até mesmo a Polícia Judiciária tem dificuldade em vê-las. Uma espécie de segredo de Estado. É grave? Não é nem deixa de ser. Mas se fizeram a lei em nome da transparência democrática ela não serve certamente o fim que proclama. O texto foi revisto em 1995, tornando livre a consulta das declarações de titulares que iniciaram as suas funções depois de Setembro daquele ano, mas todo o período retroactivo a 1983 ficará para sempre no sigilo do tribunal. Não será por isso possível seguir a evolução dos rendimentos e património de por exemplo Cavaco Silva ao longo dos oito anos em que foi primeiro-ministro, ou de Mário Soares nos dez anos de presidente da República, ou de Almeida Santos ao longo do grosso da sua carreira política, ou, ou, ou até ao infinito. É toda a primeira geração de políticos pós 25 de Abril que se retira protegida pela duplicidade da primeira versão da lei em 1983.
"Sabe qual é o problema das declarações?", interroga fonte qualificada da Polícia Judiciária na área do combate à criminalidade económica e financeira. E responde: "É que quando têm conteúdo não se sabe donde vêm os fundos e quando não têm conteúdo não se sabe onde está a informação. O direito de consulta das declarações sem acesso à informação fiscal, autárquica e patrimonial é uma inutilidade. Se se puder descobrir sinais exteriores de riqueza não justificada ou então sinais objectivos de declarações em falta ter-se-á feito o máximo possível. O lado patrimonial seria o mais eficaz para combater a corrupção desde que houvesse meios de conhecer o património, de fazer o cruzamento com o IRS e IRC, a contribuição autárquica, os dados da conservatória de registo automóvel, etc., e se tudo isso fosse controlado pelo tribunal de contas. Face ao segredo das bases de dados patrimoniais e fiscais e à proibição de cruzar as bases de dados do Estado as declarações não servem para restabelecer a confiança do cidadão na classe política, como se pretendia".
Contudo a simples leitura de uma amostra dessas declarações, que têm que ser transcritas perante a presença de um funcionário dado que é proibido fotocopiá-las, não deixa de suscitar alguma perplexidade. A primeira surpresa vem do facto dos seus titulares revelarem uma vocação generalizada pelo capitalismo popular: uns mais outros menos todos se mostram entusiastas do vasto leque de operações financeiras disponibilizadas pela banca. Há casos de verdadeira devoção ao mercado de capitais. Outra característica comum nos titulares observados é a ausência de contas no estrangeiro, que a existirem deveriam ter sido declaradas. Não é portanto por eles que se confirma a evasão de dinheiro para fora do país, tantas vezes invocada pela própria classe política para proteger o sigilo bancário. A modéstia em matéria de propriedade automóvel é igualmente notável, tirando uma ou outra excepção: muitos apresentam carros com dez e mais anos de idade. Para além destes pormenores a consulta revela exemplos pródigos em conciliar o pesado sacrifício das funções públicas com a abundância de negócios particulares. As actividades paralelas dos nossos parlamentares, autarcas e governantes são múltiplas: de empresários dinâmicos a proprietários rurais, de criadores de gado a consultores. Um exemplo de produtividade em várias frentes.
A primeira declaração que pode ser consultada de Cavaco Silva é a da sua candidatura a Belém em 1996, já depois portanto da entrada em vigor da nova versão da lei de 1995. E neste caso a circunstância de tal declaração ter coincidido praticamente com o fim da sua actividade de primeiro-ministro permite saber quais os rendimentos e património que Cavaco Silva declarou à saída dos oito anos de chefia do Governo. Nada de muito impressionante: dois prédios urbanos em Montechoro, com rés de chão e 1.º andar, um lote para construção também em Montechoro em nome da mulher, uma parcela de terreno em Boliqueime, 2926 acções do BCP, 380 do Crédito Predial Português, duzentas da Central de Cervejas, vinte da Tranquilidade, um depósito a prazo de 4500 contos e duas mil unidades de certificados de aforro no valor de quinhentos escudos cada. Os rendimentos de trabalho de Cavaco Silva no ano anterior ao da declaração somam quinze mil contos e os da mulher 2800. Os dois declararam-se proprietários de um Citroen BX e de um Peugeut 205.
No caso de Mário Soares, apesar do seu segundo mandato de PR ter terminado em 1996, já quando a nova versão da lei estava em vigor, não é possível consultar a sua declaração à saída do palácio de Belém visto que essas funções tiveram início em 1991 e são portanto protegidas pelo articulado de 1983. Daqui resulta que a sua primeira declaração de acesso livre é a de candidato a deputado europeu, em 1999. E que diz ela? Diz que Mário Soares é proprietário de uma quota de doze mil contos do colégio Moderno, da metade indivisa de dois prédios urbanos no Campo Grande, de um outro em Nafarros, de mais um no Vau, de um prédio misto em Montes de Alvôr, de três prédios rústicos em Nafarros e de mais um em Bezuga, Setúbal. O eurodeputado é também um notável investidor em fundos, carteiras de títulos e obrigações.
À data da declaração, 10 de Setembro de 1999, possuía 18 213 unidades de participação do BPI Global, 2 464 do BPI Rendimento, 7 837 da Caixagest Tesouraria, 855 na Eurocarteira do BCP, 7 277 no fundo BCP taxa fixa, 1 581 no fundo BCP curto prazo, 3 690 no fundo BCP acções, 10 912 no fundo BCP Global, 3 957 no fundo BCP Global I e 629 no fundo PPA do BCP.
Em matéria de acções declarava 26 na Brisa, uma na Cimpor, seiscentas na Engil-SGPS, 255 na EDP, 177 na Portugal Telecom, cem no BCP e 150 no BPA.
Obrigações tinha 2 500 do BPI Capital Euro 50/1999, mais 25 000 do BPI Capital Seguro Euro 1999, quinhentas do BFB Capital Seguro Europa 100/1999, trezentas do BFB Capital Seguro França 1998 e seiscentas do BFB Capital Seguro Itália 1998.
No que diz respeito a contas a prazo Mário Soares declara apenas um exíguo depósito no Banco Português do Atlântico no valor de mil contos e a 181 dias.
A modéstia do ex-presidente da República é notável em matéria de automóveis: a metade indivisa de um Renault 16TS.
O seu rendimento colectável bruto para efeitos de imposto complementar cifrou-se nos 5 280 contos, e o da esposa, Maria Barroso, em 3 960.
Os rendimentos de trabalho do casal foram no ano a que respeita a declaração de 49 544 contos para Soares e de 13 677 para Maria de Jesus.
Nos termos da lei os titulares de cargos políticos devem renovar anualmente as respectivas declarações de riqueza, mas os deputados tornaram explícito que esta norma se aplicaria apenas a quem exerça funções executivas, pelo que se excluíram dessa obrigação, quer estejam na Assembleia da República quer em Estrasburgo. Soares só terá por isso que apresentar nova declaração no termo do seu mandato europeu.
Bastante mais parco na sua declaração de rendimentos e património é João Soares. A primeira participação disponível no Tribunal Constitucional tem a data de 10 de Fevereiro de 1998, como presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Soares filho refere apenas ser coproprietário de um prédio rústico na freguesia de Cortes, Leiria, e ter uma quota na editora Perspectivas & Realidades e outra no colégio Moderno. Para além disso possui um Mercedes 200 de 1986 e um Volkswagen de 1967. Na actualização que a 16 de Novembro de 2000 fez da declaração anterior limita-se a dizer que o seu activo patrimonial é o mesmo de 1998 e nem se dá à maçada de indicar quais foram os seus rendimentos de trabalho em 1999. Numa carta de dez linhas esclarece o tribunal que tais rendimentos estão no seu site pessoal na internet.
Em tudo oposto à parcimónia de João Soares é a declaração do próprio presidente do Tribunal Constitucional, Cardoso da Costa, apresentada a 11 de Maio de 1998. O TC não permitiu a consulta da sua primeira declaração mas o conteúdo da que está disponível por força da nova versão da lei em 1995 mostra que o primeiro dos juizes do Constitucional é um entusiasta do capitalismo popular em matéria de acções, obrigações, títulos de participação, fundos de investimento e outras aplicações.
À data de Maio de 1998 era accionista de catorze empresas ou bancos, entre umas e outros a Portucel, a Unicer, EDP, Império, Cimpor, Sporting, TVI, Totta & Açores, Sotto Mayor e Banco Português de Investimentos. No conjunto eram 3 258 acções, com a maior participação, 914, no Banco Totta & Açores.
Na carteira de títulos Cardoso da Costa declarou ter nomeadamente mil obrigações do BTA, cinquenta do Banco de Fomento Exterior, quinhentas da EDP, cem do Banco Fonsecas & Burnay e duas mil Obrigações Investimento Brasil no Banco Mello.
Títulos de participação possuía cem do BFN e nos fundos de investimentos declarava-se nomeadamente titular de 144 unidades de curto prazo do BES, 3 990 de capitalização do mesmo banco, 3 550 do BES Top, 4 890 unidades GES Património, 243 ES Fundo multiacções, 1 340 ES taxa fixa, 988 ES Europa, trezentas Fipor Poupança Investimento, 430 BPI Fundo de Acções, 5 368 BPI Fundo Global, 5 290 Eurovalor, mil Eurocapital, 418 Eurovalor PPA, 25 Tesouraria Atlântica, trezentas Valor Mais, 548 Banco Totta & Açores Acções, 901 BTA Obrigações e 4 265 BTA Multifundos.
Cardoso da Costa declarou nesse ano de 1998 ter outras aplicações financeiras, nomeadamente um Plano de Poupança Reforma no BES – C. Seg. Tranquilidade, uma Conta Poupança Habitação também no BES, uma conta a prazo a 30 dias e outra a 180. Era proprietário de um andar com duas garagens em Coimbra e os seus rendimentos de trabalho foram em 1997 um pouco menos de dezanove mil contos. Declarava-se possuidor de um solitário Peugeot 406.
Em matéria de viaturas um consumidor invulgar é António Saleiro. Na sua declaração de 23 de Dezembro de 1999, revalidada por um aditamento de pormenor entregue a 28 de Setembro de 2001, o então deputado pelo Partido Socialista declarava-se possuidor de dezasseis meios de transporte, entre os quais uma aeronave Coiotte, uma embarcação Goby e uma Yamaha de 50 c.c. O conhecido representante do povo alentejano incluía ainda no seu parque automóvel um Mercedes Benz 300S, um jeep Range Roover, um Mitsubichi e dois BMW, um touring 318 TDS e um 316 I. Grande proprietário agrícola António Saleiro manifestava ainda a propriedade de uma ceifeira debulhadora, um tractor Hanomag, uma Bedford, um Opel comercial e um Seat.
No que se refere ao património imobiliário o parlamentar dava conta dos seus prédios urbanos no monte Mealha, concelho de Ourique, um apartamento em Lisboa, outro em Quarteira, um estabelecimento comercial e de habitação em Almodôvar e um T2 em Fuengirola.
Prédios rústicos dizia um de 40, 7625 hectares em Courela das Vinhas e outro no monte das Figueiras com 24, 9875 h.
Prédio misto declarava um na freguesia da Zambujeira com 14.900 hectares.
O activo patrimonial de Saleiro, sozinho ou de parceria com a esposa, inclui explorações agrícolas e florestais, armazém e lojas de produtos agrícolas e tintas, e ainda estações de serviço em Almodôvar, S. Marcos da Serra e Vilamoura com bares, restaurantes e lojas de conveniência. O dinâmico parlamentar manifestava também 32% de uma sociedade comercial de nome Letil constituída a 5 de Abril de 1999 no Brasil, em Fortaleza, a cidade onde foram assassinados os seis empresários portugueses que caíram numa cilada assumida por um até aí anónimo e recém imigrado português.
No mercado de capitais António Saleiro declarava em Dezembro de 1999, para além de várias contas bancárias a prazo, ser subscritor de uma carteira de títulos e fundos que incluíam nomeadamente 1 139 acções Sotto Mayor, 682 acções da EDP, 41 da Cimpor, fundos de investimento no BNU realizados a 28-8-98 e 8-7-98 no valor de 15 378 contos e 7 253 contos respectivamente, e ainda duas outras aplicações no BNU Prestígio no montante de 23 mil contos e no BNU Tesouraria com 23 363 contos.
O rendimento colectável bruto anunciado por António Saleiro e pela mulher para efeitos de imposto complementar foi de 41 mil contos e a declaração assinala débitos à banca de valor superior a 150 mil contos.
Outro político dado à actividade rural é o ex-presidente da Câmara Municipal de Setúbal e velho combatente socialista Mata Cáceres. Na sua declaração ao Tribunal Constitucional com data de 7 de Março de 2001, correspondente à renovação anual do cargo de edil, o professor aposentado assinalava uma exploração agro-pecuária no concelho do Montijo em regime de arrendamento e onde se mostrava proprietário de setecentas ovelhas, trinta equinos de raça lusitana e quinhentos suínos raça alentejana. No mais é modesta a riqueza exposta por um dos homens que mais tempo esteve no poder autárquico em Portugal: uma moradia no Montijo no valor de vinte e um mil contos mas com recurso a crédito, um automóvel Ford, um jeep Susuki e uma carrinha Toyota para a labuta no campo, rendimentos brutos para efeitos de IRS no montante de dezoito mil contos dos quais sete mil vêm da sua reforma de professor. E ainda devia setenta mil contos à banca.
Um tanto mais expansivo é o seu ex-colega do Porto e camarada de partido Fernando Gomes. Este líder do Portugal nortenho diz na sua declaração de 20 de Setembro de 2000, correspondente ao início das funções de deputado, ser proprietário de prédios e apartamentos em Vila do Conde, Porto e Lisboa, investidor de acções na EDP, Brisa, PT, BCP, Futebol Clube do Porto e Cimpor, possuir dois automóveis da marca Saab, um 9000 cst e outro 9001 I, mais um MGB e também uma lancha Pollux de 2,601 toneladas. Tinha ainda, para além de uma conta poupança habitação no BPA e de um depósito a prazo no BES, 38 mil títulos Atlântico Renda Mensal no valor de 38 mil contos, um fundo de investimento no BES no montante de 1 030 contos e um outro fundo de 4 113 contos denominado AG Fundos taxa fixa. Rendimento de trabalho declarado a 20 de Setembro de 2000: 22 975 contos.
Almeida Santos, o experiente homem de Estado que se tem distinguido ao longo da sua carreira por não esconder a revolta que sente contra os ordenados de miséria dos políticos, expunha a 2 de Novembro de 1999 uma declaração de controlo de riqueza posteriormente renovada nos mesmos termos e que é extensa no capítulo do património imobiliário mas sob a forma de fracções indivisas: metades, quartos e oitavos. Trata-se de prédios urbanos em Lordelo de Ouro, Porto (dois), Nova Oeiras, Monte Gordo, Vide-Seia, Lisboa (três) e Freixo de Espada à Cintra. Dois prédios rústicos também em Vide-Seia e Freixo de Espada. A carteira de títulos declarada por Almeida Santos era curta: 25 acções da Cimpor, 101 da PT e 178 da EDP. Conta a prazo apenas uma. Carros dois, já velhotes: um Toyota carina de 1993 e outro de 1994. Rendimento colectável bruto para efeitos de imposto complementar: cerca de três mil contos. Rendimentos de trabalho: 15 100 contos à data de Novembro de 1999. Em 2001 a verba subiu para 19 500 contos mas Almeida Santos vendeu a carteira de títulos bem como o direito ao 1/8 indiviso de um dos prédios de Lisboa.
Na declaração que a 18-12-2000 apresentou ao Tribunal Constitucional respeitante ao início de funções no ministério da Juventude e do Desporto José Lello exara na rubrica do seu património imobiliário um prédio urbano no Porto, uma moradia em Vila do Conde e um apartamento em Lisboa. A sua actividade accionista e de participações inclui 250 obrigações CISF, 9 569 acções no BCP, 520 na Brisa, 3 755 na EDP, 240 na PT e 21 500 numa sociedade anónima. No capítulo carteira de títulos, contas bancárias a prazo e aplicações financeiras equivalentes figuram, um tanto enigmaticamente: BPA Vida 4 094, Fundo AF PPA 2 242 + 127,4081 + 127,4081, um Fundo AF Global 31 663, Atlântico Renda Mensal cinco mil + 8 700 e AF Multinvestimentos 623 . Os rendimentos que declarou para efeitos de IRS foram 19 195 contos.
Vereador socialista ao longo de mais de uma dezena de anos na Câmara Municipal de Lisboa a última declaração que Machado Rodrigues entregou no Tribunal Constitucional, correspondente à cessação de funções, ainda não estava disponível em Fevereiro/Março de 2002. Mas a anterior, entregue a 13 de Fevereiro de 1998 e correspondente ao início de novo mandato de vereador, indica um património imobiliário composto por um andar em Lisboa, uma casa com quintal em Colares, dois apartamentos em Vila Pouca de Aguiar – um T3 e um Tl com garagem e loja – e quatro prédios rústicos no lugar e freguesia de Soutelo de Aguiar.
Quotas e acções declarava dezoito acções na Grão-Pará, uma acção na Interhotel, 8 100 na empresa Electrónica e Comunicações, três mil na EIA – Ensino, Investigação e Administração, 125 na PT, cem na Brisa, uma quota não especificada na Sociedade Cooperativa Codes e outra no valor de quatrocentos contos na empresa Telemática e Serviços.
Títulos de participação tinha 12 313 na CGD, onde assinava também uma conta a prazo. Na folha de barcos, aeronaves e veículos automóveis Machado Rodrigues regista um Peugeot 405 SR de 1993.
Direitos de Crédito pronunciava dois: 66 680 contos da promessa de venda das suas acções na Electrónica e Comunicações e 6 500 contos por trabalhos de consultor na Tecnep. Débitos eram à data da declaração também dois: 535 contos à CGD e 2 178 contos ao Montepio Geral. Rendimentos de prédios rústicos e urbanos: 11 500 contos. Rendimentos de trabalho: 17 284 contos.
António Guterres, o primeiro-ministro que nas páginas do Diário de Notícias de 31 de Março de 2001 foi classificado como o engenheiro da Europa do século XXI por um ilustre jornalista que agora se fez deputado pelo PS com o ambicioso objectivo de ‘varrer a tralha guterrista’ da face do país, apresentava a 28 de Dezembro de 2001 a sua declaração de reinício do cargo, a qual repete a que tinha entregue um ano antes. O manifesto de Guterres é algo semelhante ao de Almeida Santos no que diz respeito ao património imobiliário: muitas partes indivisas de prédios urbanos e rústicos, nomeadamente em Lisboa (quatro) e no concelho do Fundão (39).
Carteira de títulos declarava 2 295 acções na Impreger, 406 na Impresa SGPS, 150 na Sinergia, trinta na Multinova, 160 unidades de participação PPA Caixagest e contas bancárias assinava uma na CGD. Dívidas à data da declaração: 52 mil contos à CGD e 19 700 a Virgílio Guterres. Rendimentos de trabalho: 25 927 contos.
Pela dúzia de exemplos aqui citados parece razoável concluir que os nossos políticos não são propriamente uns reis da Arábia Saudita, embora também não pareçam estar à beira da bancarrota, como por vezes parecem sugerir, sobretudo se tivermos em conta que o ordenado mínimo nacional é de 350 euros por mês e que mais de dez por cento da população ainda vive com pensões de reforma abaixo desse valor. É verdade que no outro extremo do leque salarial há gestores públicos a ganharem 45 mil euros mensais, fora as mordomias, mas, justamente, esse é o problema – um problema que nunca consta da agenda dos partidos políticos com acesso ao governo: o da redistribuição da riqueza em Portugal, onde existe o maior fosso da União Europeia entre os vinte por cento da população mais rica e os vinte por cento da população mais pobre. Assunto tabu.
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Segunda reportagem silenciosamente censurada por Francisco José Viegas na revista "Grande Reportagem". Foi entregue a 5 de Junho de 2002. Foi também um trabalho previamente combinado com ele:
UM POUCO MAIS DE VIDA AQUI TÃO PERTO
Digamos para simplificar que o Tai Chi Chuan da Via Interior não é ainda a felicidade mas é seguramente um antídoto único contra a impessoalidade da vida contemporânea. E entre nós existe uma escola, discreta e rara, dirigida por um professor a partir de Monchique, embora seja muito mais conhecida no estrangeiro do que em Portugal.
Por vezes a excelência mora ao lado e nem sequer damos por isso. Pouco admira num país onde regra geral o saber não tem valor de mercado: ainda em Abril de 2002 a empresa de recursos humanos Ad Capital International Search e uma das escolas europeias mais conceituadas na área da gestão, a britânica Crandfiel School of Management, revelavam com pormenor a incompetência dos gestores portugueses (The News, 27 Abril 2002), o que é apenas o corolário de uma cultura onde trinta anos depois do fascismo se continua a fazer ‘carreira’ pela cunha, pelo nome de família, pela troca de favores e pelo tráfico de influências de partidos e corporações. E em Maio uma outra escola de gestão, o Institute for Management Development, Suíça, confirmava no seu Anuário da Competitividade Mundial que Portugal é o país da União Europeia onde os gestores "são os mais incompetentes e menos credíveis" (Expresso, 11 Maio 2002), o que não impede que ganhem acima da média dos seus colegas europeus quando os salários do português comum ficam a uma vergonhosa distância dos Quinze. Mas tudo isto vai mudar, ao que parece, com varinha mágica da liberalização das leis laborais. No dia em que os patrões e os seus sacos de areia puderam fazer ainda mais terrorismo psicológico nas empresas do que já fazem a economia lusa tornar-se-á um caso de fazer inveja à Finlândia, que exactamente tem das economias mais competitivas da Europa e simultaneamente dos melhores salários e a política social mais protectora. Só que na Finlândia regra geral ninguém ganha mais do que 4500 euros líquidos por mês nem menos de dois mil. Mas isto, claro, é proibido dizer num país onde os ordenados variam entre os 45 mil euros de um gestor público e as reformas de 175 euros dos desgraçados que recebem a pensão social mínima. Fabien Pierre Jean Bastin, um belga de 48 anos que vive há dez num remoto lugarejo da serra de Monchique, é bem o exemplo deste desprezo indígena pelo saber. Engenheiro informático durante quinze anos num centro de formação em Ispra, Itália, Fabien resolveu em 1992 abandonar tudo para se tornar professor de tai chi. Veio parar a Monchique por que aí vivia um dos grandes mestres contemporâneos de artes marciais, o sérvio Vlady Stevanovitch, fundador da escola de Tai Chi Chuan da Via Interior. Em meados da década de noventa Vlady, 77 anos, acabou por trocar a casa quase inacessível na serra de Monchique onde vivia e recebia alunos de todo o mundo por uma localidade no sul de França mas Fabien Bastin continuou. "A serra atrás de Monchique é um lugar ainda virgem, com uma energia limpa e forte", diz. "E gosto do Algarve, do sítio muito sossegado onde moro, do seu clima, da mistura de nacionalidades. E Faro está ligado a todos os países, então é fácil fazer os seminários no estrangeiro". E é justamente aqui que o caso de Fabien Bastin se torna exemplar: hoje em dia esta criatura de uma simplicidade antagónica de todo o ritual e esoterismo que costumam rodear o universo das artes marciais ensina regularmente numa dúzia de países, tem 120 alunos já iniciados de dezasseis nacionalidades, mas é completamente desconhecido do meio no país onde reside e faz formação de professores e a partir do qual se desloca para os seus cursos no estrangeiro. Só este ano ele e a mulher, Jeanne Houde, uma canadiana de 45 anos que é também instrutora da escola, já fizeram cursos em França, Itália, Escócia, Grã-Bretanha, Andorra e Ucrânia. Nos últimos dois estágios de verão que orientaram na Foz do Farelo, onde moram a treze quilómetros de Monchique, tinham alunos que vieram de todos estes países e ainda de Espanha, Alemanha, Croácia, Estados Unidos e Nova Caledónia – mas de Portugal eram dois. Isto é tanto mais surpreendente quanto é verdade que seguir as aulas de Fabien e Jeanne na Foz do Farelo ainda que seja por um breve período de semanas ou meses não é cómodo: o local é muito vagamente servido por uma ou outra camioneta de carreira e não tem condições de estadia: nem pensões, nem restaurante, nem supermercados, apenas um ou outro café que pouco mais vende do que má cerveja e péssimo vinho. Portanto quem vier de longe tem que se desenrascar numa modesta casa alugada por uma aldeã, se estiver livre, e Fabien e Jeanne disponibilizam uma ou outra cama e o uso da cozinha. Há pessoas que para seguirem as aulas têm que ficar a dormir em tendas. Que nestas circunstâncias apareça gente da Nova Caledónia ou dos Estados Unidos apenas pelo mérito de um ensino que em dez anos rompeu o isolamento da serra e se tornou conhecido além fronteiras e ninguém de Faro ou de Monchique diz bem do apreço dos portugueses pelo saber, mesmo quando o têm ao alcance da mão. Por que a questão não é a falta de interesse entre nós pelas artes marciais em geral e pelo tai chi em particular. Antes pelo contrário: de norte a sul do país, nas grande cidades como nas pequenas aldeias, são hoje centenas senão mesmo aos milhares os locais onde se ensina karaté, judo, aikido, kendo, e o tai chi está visivelmente a entrar na moda. O problema é de facto o desprezo pela qualidade e o culto da banalidade, dois ingredientes que não existem na escola fundada por Vlady Stevanovitch. Mas Fabien olha para isto com a maior das naturalidades: "O travão maior é o medo das pessoas em se empenharem. Esta atitude não é só portuguesa, talvez aqui seja mais acentuada por razões históricas e de cultura. Em Portugal diz-se muito ‘mais ou menos’, não se diz sim ou não... O empenho numa aprendizagem como a nossa equivale a um risco, talvez dê mesmo a impressão de uma perda de liberdade. Mas ultimamente vemos mudanças, um dos nossos alunos, que dá aulas em Armação de Pêra e Lagos, tem uma maioria de alunos portugueses".
Mas o que é então o Tai Chi Chuan da Via Interior? Basicamente a escola fundada por Vlady Stevanovitch em 1988, hoje com duzentos professores e cinco mil alunos em dezenas de países, procura recuperar duas noções originais, e portanto milenares, das artes marciais indo-chinesas, e que se perderam ao longo do tempo e em particular com a difusão generalizada de disciplinas como o judo e o karaté e a sua transformação em actividades desportivas. Essas noções são o chi e o tantien, e nenhuma delas tem equivalente exacto nos vocábulos próximos de nós. Mas para efeitos meramente operacionais costuma traduzir-se chi por energia vital, seja ela das pessoas ou da natureza, e tantien pelo centro geométrio do corpo, localizado no ventre. O Tai Chi da Via Interior será assim um método de treino que desperta, desenvolve, armazena e manipula a partir do centro de cada um de nós em comunhão com o universo uma faculdade que integra a memória genética do homem e tudo o que vive em seu redor. Quem tem uma experiência algo duradoura nestas áreas sabe que regra geral a linguagem das artes marciais chegou até nós, desde os anos sessenta e na prática dos ginásios como na divulgação em livro, sob uma retórica que é própria das culturas orientais mas estranha ao ocidente, estilo os cinco elementos e as oito portas, e que só serve para baralhar as pessoas quando não se destina apenas a esconder a ignorância dos ‘mestres’ de artes marciais que nos últimos trinta anos fizeram delas um negócio lucrativo.
Um dos aspectos atraentes da Escola da Via Interior é que o seu método de trabalho e ensino é absolutamente prático, claro e directo: trata-se de fazer exercícios, é tudo. O chi desperta-se, desenvolve-se e manipula-se por que há exercícios que o despertam, desenvolvem e manipulam, ponto final. O tantien não é uma abstracção situada no interior do ventre três dedos abaixo do umbigo mas um órgão que se constitui com trabalho e vontade segundo regras perfeitamente nomeáveis. É verdade que tais exercícios foram mantidos em segredo ao longo de milhares de anos pelos seus detentores e passados voz a voz de mestre a alunos seleccionados, habitualmente entre família. Mas esse tempo acabou e há pelos menos duas décadas que os segredos saíram do círculo restrito de templos e escolas reservadas. Vlady Stevanovitch foi um dos primeiros a dá-los a conhecer, ele que os recebeu ao longo de cinquenta anos de professores orientais. Desde há década e meia escreveu uma dezena de livros - nenhum deles traduzido em português, infelizmente -, criou uma escola, formou guias, passou o legado. Num desse livros, La Voie de l´Energie, que está agora a ser traduzido, descreve minuciosamente noventa técnicas para o despertar e desenvolvimento do chi, que incidem sobre a descontração física e a respiração, a circulação energética e a sua manipulação, os movimentos encadeados de tai chi chuan - a forma -, e ainda sobre uma cuidadosa selecção dos recursos de chi kung, esse chi kung recentemente interdito na China com pena de prisão para quem ousar praticá-lo.
"Habitualmente", diz Fabien Bastin, "as escolas de tai chi procuram movimentos exteriores perfeitos, que depois de repetidos milhares de vezes ao longo de décadas podem atingir a consciência do chi, do mundo interior. Ou talvez nunca o atinjam. A nossa abordagem concentra-se desde o início no trabalho interior, usando técnicas que foram guardadas em segredo até há pouco tempo. A diferença está portanto no tipo de orientação que damos ao treino. A via exterior pode conduzir ao gesto perfeito, a interior ao desenvolvimento de faculdades do ser profundo que se perderam pelos condicionalismos da educação e pelas necessidades do ser social, da vida quotidiana tal como a conhecemos hoje, que cortaram o ser humano do seu próprio corpo. Redescobrir esse corpo é o nosso trabalho". Mas justamente, tal objectivo é compatível com a vida dos nossos dias, carregada de obrigações e tensão? "Isso depende de cada um de nós, das escolhas que fazemos. É frequente ouvir-se dizer: ´Tenho que fazer isto, cuidar daquilo, sair com os amigos, divertir-me’. Mas quantas vezes essas decisões são essenciais? A televisão, a sobrecarga de informações quase sempre inúteis, defender causas sentado no sofá a beber um copo, tudo isso se não actuarmos serve apenas para criar mais stress e ansiedade. Trata-se de saber o que é essencial para a vida, como protegê-la, o que nos ajuda a viver melhor".
Fabien Bastin pode falar por experiência própria. Antes de se dedicar ao ensino do tai chi era quadro superior num centro de formação da comunidade europeia, ganhava o hoje equivalente a sete mil euros por mês, mais as regalias de um funcionário da EU. "Trabalhava com gente erudita", recorda, "investigadores, gente que ganhava muito dinheiro e com uma série de regalias, um paraíso. Mas que surpresa ver as pessoas tristes, zangadas, fechadas, manhosas, violentas contra si próprias, uma violência pequena, invisível, mas presente. O paraíso material não dá felicidade. Basta olhar à nossa volta: metade dessas pessoas vivem doentes e a outra metade prepara-se para adoecer. Há alguma coisa de absurdo nisto. A ciência não só não faz as pessoas mais felizes como também não cancela a violência, nem dá mais consciência ao ser interior. Então eu senti que tinha que mudar, e um dia fui à Bélgica para ver os meus pais e entrei numa livraria. Já estava à procura de algo, não sabia o que era. Tinha uma lista de livros para comprar. De repente vi uma capa cinzenta no meio dessa prateleira de livros cheios de cor, olhei o rosto na capa do livro, li uma página e ficou tudo claro para mim. Era o livro de filosofia do Vlady, Biosophie. Escrevi-lhe, e tudo começou aí. Então segui o Tai Chi da Via Interior. Como vivia a mil quilómetros do Vlady comecei com um curso de três dias. De vez em quando alguns dias mais e depois voltava para casa para trabalhar sozinho. Uma parte do trabalho interior pode praticar-se frente ao computador! Em 1990 tornei-me professor. Quero passar aos outros a dádiva que recebi de Vlady Stevanovitch."
O Tai Chi Chuan da Via Interior também é uma arte marcial? "Os mestres do passado cujos segredos hoje começamos a conhecer tomaram consciência da energia vital no momento em que se confrontaram com situações de perigo, ou mesmo com a morte. Aprenderam a utilizá-la, a segui-la, a conquistar confiança. Desenvolveram técnicas para nos enriquecer, e são essas técnicas que usamos. Paralelamente praticamos uma forma de kung-fu mas é só para nos divertirmos. Não confundimos competição desportiva com combate. Numa competição luta-se para ganhar pontos respeitando determinadas regras. E o treino que se faz é condicionado por isso e para isso. Permite ao concorrente, em situações bem codificadas, encontrar o mais rapidamente possível uma resposta ao adversário de acordo com as regras. Assim ganha os pontos. Se não cumprir as regras é desclassificado e em última análise o campeão do mundo pode ser aquele que é mais esperto a cumprir as regras. Pelo contrário num combate defende-se a vida com todos os meios. Perder significa a morte. Era assim há um ou dois milhões de anos na selva virgem e é assim hoje, se de facto se trata de um combate e não de uma competição. Os praticantes avançados sabem a diferença entre a exibição desportiva e a via marcial. E a diferença está no chi, que é a base do nosso trabalho. Quando se alcança o chi a arte de combater está dentro de nós. Não é preciso conhecer técnicas extraordinárias para ser eficaz no combate. Mas para nós o importante é a saúde. É uma evidência: se ferimos o corpo durante um treino, e isso é o que acontece no desporto em geral e no desporto de competição em particular, é porque estamos a fazer os movimentos errados. Enfraquecemos o corpo, muitas vezes ficamos com mazelas ou até mesmo deficientes. Perdemos sempre. Os movimentos do tai chi são os movimentos simples, naturais. Na prática das artes marciais os mestres procuravam os movimentos melhores para sobreviver. Os movimentos mais eficazes são aqueles que a nossa mente esquece mas o corpo memoriza. São esses que no momento de perigo entram automaticamente em acção, por que não temos tempo para pensar. É essa uma característica fundamental do nosso método: não pensar. Estar alerta, sem medo e confiante, mas não racionalizar. O corpo treinado pensa por si e age por si. Se estivéssemos frente ao perigo como num exame a morte seria certa! Nunca sabemos como um combate pode evoluir, o espírito deve ficar livre de teorias para criar no momento certo a defesa melhor. Isto é verdade para as artes marciais como é verdade para a vida de rotina, a vida de trabalho, de descanso, de prazer. O adversário nunca pode prever o que vamos fazer por que nós próprios não o prevemos. Então estamos sempre em vantagem. Mas nada disto faz parte das nossas preocupações. Os efeitos que podemos garantir a curto prazo são a saúde mental e física. A partir daí a vida corre mais fluida. Acontecem coisas que não esperávamos e que não são previsíveis, as chamadas coincidências felizes. Mas mantemos os pés na terra. Como todos os seres vivos estamos enraizados na terra e no meio dos outros seres. Deixar para as brumas astrais significa abandonar a vida, e muitas vezes confunde-se a pesquisa profunda do tai chi com as fantasias que negam a vida". Pode-se falar de um segredo do Tai Chi Chuan da Via Interior? "Trabalho intenso pelo domínio da vontade e um sorriso. O trabalho interior é uma progressão infinita mas pessoal, que passa por diferentes estados de consciência. Cada estado adquirido, assim como cada técnica aprendida, representam uma passagem para a fase seguinte. Nunca paramos nem nos deixamos distrair pelas experiências conquistadas. Podem ser muito agradáveis, podemos gozar muito com elas, mas se lhes déssemos importância pararíamos a evolução. E as possibilidades do chi não param, um degrau é sempre a base do seguinte".
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Texto publicado na "Grande Reportagem" em Abril de 2002 e que precedeu a censura de Francisco José Viegas às duas reportagens atrás reproduzidas:
O PRESIDENTE QUE GOSTAVA DE JORNALISTAS
Para que serve o jornalismo? Depende de que jornalismo se fala. Mas aquele que nos é revelado pela antiga assessora de Mário Soares para a comunicação social em dez anos de presidência da República é bastante inquietante.
Estrela Serrano faz um estudo comparado entre os ‘aparelhos de comunicação’ dos três últimos presidentes da República, Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio, e conclui que Soares foi de longe o que melhor soube usar os jornalistas. Curiosamente o título da obra invoca primeiro o protagonista e só depois o órgão de soberania: "As presidências abertas de Mário Soares – as estratégias e o aparelho de comunicação do Presidente da República". Começou por ser tese de mestrado na Universidade Nova de Lisboa e é anunciado o seu lançamento em livro no final de Fevereiro de 2002. No enquadramento teórico e metodológico do trabalho, que convoca as experiências britânica, alemã e norte-americana como uma espécie de introdução ao caso português, a investigadora mostra como o poder político cria pseudo acontecimentos para chamar os media a ‘terrenos’ em que tem uma capacidade de controlo e influência superior ou distinta da estabelecida habitualmente entre fontes e jornalistas. Na esteira dos autores que cita Estrela Serrano divide esses pseudo acontecimentos em quatro categorias: a aparição em público dos políticos, as suas deslocações no país com duração superior a um dia, as viagens ao estrangeiro e os encontros formais ou informais com representantes dos meios de massa. Qualquer delas se destina a comandar a agenda e Mário Soares mostrou ter um talento particular ao inventar uma quinta categoria, transversal a todas as outras: as presidências abertas.
"As presidências abertas foram construídas para dar visibilidade ao dr. Soares e para desgastar Cavaco Silva", diz Estrela Serrano em declarações à GR. A hoje directora do departamento de jornalismo da Escola Superior de Comunicação Social descreve a assustadora homogeneidade com que os repórteres seguiram sem desvios os temas e enquadramentos propostos pelo chefe de Estado nessas campanhas, mesmo quando elas se transformaram num combate indisfarçável ao governo legítimo da nação duas vezes eleito por mais de 50% dos votos. O principal garante do respeito pelo escrutínio popular patrocinava assim manifestações e protestos que se desenrolavam a par e passo das suas cerimónias oficiais enquanto presidente da República, com improvisações organizadas e bandeiras negras que emergiam por entre o normalíssimo funcionamento das instituições democráticas e sem ameaça visível no horizonte para além do ruído mediático acerca de uma misteriosa ‘ditadura da maioria’ que ninguém percebia onde é que estava. Esta lógica alcançou o auge na peregrinação à volta da Área Metropolitana de Lisboa, entre 30 de Janeiro e 15 de Fevereiro de 1993, um ano e três meses após a segunda maioria absoluta do PSD e num ambiente em que a guerra entre Belém e S. Bento atingia proporções de comédia com a hipótese de dissolução da Assembleia da República. Ao longo de duas semanas agricultores, estudantes, moradores, sindicalistas, desempregados, ambientalistas esperavam Soares e este era informado com antecedência da sua presença. Os assessores alertavam os jornalistas para não perderem esses momentos, a segurança encarregava-se de lhes abrir passagem até junto do primeiro magistrado da nação e este não iniciava os seus discursos sem estar rodeado dos repórteres. O staff presidencial combinava encontros informais entre o chefe de Estado e os media e se os enviados dos órgãos de comunicação social considerados mais influentes não solicitavam uma conversa privada com o inquilino de Belém eram os assessores que tomavam a iniciativa de a sugerir para se certificarem de que a perspectiva do jornalista não era desfavorável a Soares.
"A proximidade e o convívio existente entre os jornalistas que acompanhavam o Presidente e os assessores permitiam que estes se apercebessem das reacções dos jornalistas a determinados eventos ou palavras do Presidente e o informassem de que era necessária uma sua intervenção no sentido de um enquadramento favorável, que surgia então como natural", escreve Estrela Serrano. Soares começava o dia a ler o Diário de Notícias e o Público e de 24 em 24 horas era informado pelo seu staff da cobertura total que estava a ser feita. À hora dos principais telejornais a caravana parava, mas quando isso não acontecia a equipa do chefe de Estado gravava-os em vídeo para serem vistos à noite de modo a avaliar o impacto dos acontecimentos e se fosse caso disso introduzir correcções de estratégia. "A leitura dos jornais e o facto dos autores das notícias se encontrarem quase permanentemente junto do Presidente e dos assessores facilitava o controle de desvios ao discurso oficial", escreve Estrela Serrano, que faz o enquadramento teórico desta ‘fatalidade’ citando vários autores. "A proximidade permanente do repórter relativamente à organização ou figura pública que cobre pode conduzi-lo a adoptar a perspectiva oficial sobre os assuntos", sublinha, convocando estudos feitos nos EUA e no Canadá de acordo com os quais alguns repórteres se deixam de tal modo envolver com os acontecimentos e seus protagonistas que acabam por agir "como se fossem parte da organização que cobrem, tornando-se porta-vozes das suas fontes em vez de observadores independentes. Em alguns casos são uma espécie de assessores de imprensa daqueles cujos assuntos lhes compete cobrir. Este fenómeno verificou-se, em parte, na Presidência Aberta e existe, em geral, quando os jornalistas são destacados durante dias ou semanas junto de um político, como nas campanhas eleitorais".
Ou nas viagens ao estrangeiro, outro dos temas analisado por Serrano e em que Soares foi bastante exuberante: ele fez em dez anos de mandato 41 visitas a outros países, quatro vezes mais do que Eanes. Mário Ramires, um jornalista da Lusa que acompanhou Mário Soares e Jorge Sampaio em diferentes deslocações, presta o seu testemunho a Estrela Serrano admitindo que em viagem os repórteres funcionam como um grupo e que as notícias "acabam todas por ter a mesma forma, o mesmo ponto de vista, o mesmo enfoque". A sua experiência é partilhada por outros profissionais citados pela autora, de tal maneira que no caso da presidência aberta na Área Metropolitana de Lisboa Estrela Serrano pôde concluir que existe uma similitude de títulos e leads nos vários media que analisou. "O jornalista é deslocado da sua redacção", explica a investigadora em declarações à GR, "mergulha num grupo em viagem ao longo de 15 dias, três semanas, um mês, come, dorme e convive sempre com as mesmas fontes e os mesmos colegas. E portanto toda a sua cabeça, a maneira como vê o acontecimento, é influenciada pelas fontes e pelo espírito de grupo com os colegas. Pode perder a distância. É uma estratégia deliberada dos políticos, que têm como objectivo conseguir influenciar as notícias. Não podemos ser ingénuos, vivemos numa sociedade em que os corpus se organizam para dominar o espaço público". Estamos a falar de manipulação? "Se atribuímos à palavra o sentido anglo-saxónico, news management, ou seja como é que os governos orientam a informação, a tentam dirigir e controlar, sim, pode falar-se de manipulação. Mas isso hoje em dia não é mais do que o resultado do desenvolvimento das técnicas de relações públicas e de marketing aplicadas à política. Os governos aperfeiçoaram os seus métodos de controlo da informação. O jornalista de certa maneira, e sobretudo na política, está sempre a fazer o jogo de alguém. E isto tem a ver com o próprio processo do trabalho jornalístico, em que o repórter procura o que não é consensual, o lado negativo das coisas. E mostrar o lado negativo do Portugal de sucesso anunciado por Cavaco Silva era uma coisa que interessava aos jornalistas". Mas no caso das presidências abertas isso não foi estranhamente consensual, como se os jornalistas tivessem reagido em manada? "Mas isso reagem sempre, são eles próprios que o dizem. Os opinion makers começam a dizer que isto está mal e a partir daí as coisas estão péssimas. O que se passou nessa altura com Cavaco Silva está a passar-se hoje com Guterres. Neste momento pode dizer-se que houve uma coincidência de interesses entre os jornalistas e aqueles que queriam destruir o Governo de António Guterres".
Estrela Serrano faz notar que para manter o seu distanciamento os representantes dos media teriam que aprofundar aquilo que se lhes diz ou é mostrado. Mas as coisas estão organizadas de modo a que os jornalistas não tenham tempo para parar e pensar. Até pelas regras da concorrência, que impõem o imediatismo. E o poder político, como de resto as empresas, sabem isso. Se querem ter voz nos meios de massa devem perceber como é que os repórteres trabalham. Os cursos da Escola Superior de Comunicação Social incluem cadeiras de relações públicas e marketing que exactamente se destinam a ensinar os alunos a lidar com os profissionais de informação. "Nos dez anos que estive em Belém aprendi mais sobre jornalismo e sobre as empresas de comunicação social do que na rádio e na televisão", diz a investigadora, "porque vi as coisas pelo outro lado, vi como se fazem títulos e primeiras páginas sem suporte. O director, o editor, aquele que faz as primeiras páginas nos jornais e os alinhamentos na televisão, o último gate keeper das notícias, o que afinal deixa passar o que chega ao público, esse está a pensar sobretudo na audiência. Porque se não vender é o seu lugar que está em jogo. E portanto aquilo que privilegia são os temas populares, as belas frases que fazem títulos, os sound bites. Veja a última campanha eleitoral, para as autárquicas. Quais foram os projectos concretos dos candidatos que ficámos a conhecer? Muito poucos. O que sabíamos todos os dias era quem ia à frente e atrás nas sondagens. O objectivo do meu livro é dar a conhecer um relacionamento que não é conhecido entre os jornalistas e as suas fontes, tentar reflectir sobre como é que nas sociedades muito mediatizadas os políticos procuram passar as suas mensagens e como é que os jornalistas podem ou não ficar equidistantes das fontes". E podem? "Podem, mas mudando alguma coisa naquilo que é hoje a prática do jornalismo, nomeadamente separando a informação do comércio. Enquanto forem as audiências a ditar o sucesso ou insucesso de um meio de comunicação social será o lixo que vende. Muitos media existem apenas para vender publicidade. Os problemas do jornalismo foram agravados pela televisão, que tablóidizaram os jornais, mas o maior problema é o poder das fontes, isso é muito claro. As fontes hoje em dia têm um profissionalismo, uma capacidade de organização e meios que o jornalista se não toma cautelas, se não se precavê contra esse poder, só pode fazer um mau trabalho. Mas esse problema não é das fontes, é do jornalista. Cada vez há menos jornalismo de investigação e eu não sei se é só por causa do imediatismo, da falta de tempo e da escassez de recursos ou se é interesse em que as coisas aconteçam assim, não deixar ao jornalista tempo para investigar".
Da análise comparativa à agenda dos três presidentes, Eanes, Soares e Sampaio, Estrela Serrano conclui que o segundo foi de longe o que mais cultivou encontros com a gente dos media quer directamente quer por intermédio do chefe da casa civil e porta-voz, Alfredo Barroso. Faziam-no através de briefings, entrevistas, encontros informais, depoimentos, mensagens, não apenas nas viagens mas também em Belém e em almoços e jantares nos restaurantes e até mesmo na casa de Nafarros, com jornalistas portugueses e correspondentes estrangeiros. "Soares investiu fortemente, logo no início do seu primeiro mandato, na criação de uma nova imagem que fizesse esquecer a de um Primeiro-Ministro muito contestado que fora a sua", escreve a autora.
Os encontros informais eram quase sempre com directores, editores e colunistas e sempre em off the record ou para informação de background. "O presidente definia desde o início as regras do jogo dessas conversas", explica Estrela Serrano nas suas declarações à GR. "Quer fosse a sós com um jornalista ou com vários ao mesmo tempo o dr. Soares falava completamente à vontade mas deixava claro que quem quisesse citá-lo teria que perguntar-lhe primeiro se o podia fazer. Fazia passar então as suas preocupações, sugeria assuntos para investigar, dava pistas, dizia: ´explorem isto!` Fala-se de Cavaco Silva e do governo mas também do Partido Socialista e de como fazia oposição, Soares dizia qual era a sua opinião sobre o comportamento do PS como oposição a Cavaco, fazia os seus comentários". E os jornalistas escreviam na sequência desses encontros? Sim, diz Estrela Serrano, não notícias mas artigos de opinião, colunas, editoriais. "Era um grupo de pessoas que marcava opinião e que tinha uma grande facilidade de aproximação ao presidente". E a informação recebida pelos jornalistas nesses encontros era questionada? "Rarissímamente. Os jornalistas em toda a parte, excepto talvez nos Estados-Unidos, têm em relação ao presidente da República uma atitude reverencial, e o caso do dr. Soares é bastante sintomático. Nos últimos anos tudo lhe era perdoado. Coisas que outros não podiam dizer nem fazer ele passou-as impune. Como é que isso se criou? É evidente que com os jornalistas e os comentadores".
As conversas de background entre figuras de Estado e jornalistas têm uma longa tradição nos sistemas políticos representativos e em particular nas ‘democracias mediáticas’, lembra a autora na sua tese, onde descreve o hábito do antigo presidente dos Estados-Unidos Lyndon Johnson convidar alguns jornalistas e respectivas mulheres para jantar, os quais ficavam muito emocionados. Johnson sabia, escreve Estrela Serrano, que esse pequeno gesto lhe garantia uma atitude de boa vontade por parte da imprensa. "Os encontros informais", diz a investigadora à GR, "são uma forma de cativar os jornalistas, onde eles tentam perceber o que é que a figura política está a pensar de uma maneira descontraída e onde se trocam muitas informações, o presidente não só as dá como recebe, os jornalistas dão muita informação aos políticos".
Proximidade, é inevitável: os jornalistas precisam dos políticos como fontes de informação e os políticos precisam dos jornalistas para serem notícia. Sempre foi assim, sempre há-de ser. Tudo está em evitar que esta dependência mútua acabe numa promiscuidade que anule a fronteira entre poderes distintos, iluda os conflitos, iniba os contrastes, tanto mais que a capacidade de organização do poder político e os meios de que dispõe são muito mais fortes do que os do jornalista, atado pelas leis da concorrência, pela necessidade de produção a toda a hora e por uma hierarquia que frequentemente tem no topo directores que são mais public relations das empresas do que profissionais com uma carreira feita no terreno.
"No jornalismo político as regras são muito pouco claras", adverte a autora. "Há acordos tácitos do estilo eu dou-lhe esta informação mas você não diz que fui eu que a dei. É claro que o jornalista que só se baseia em fugas, em off the records, corre o risco de estar a ser manipulado. O jornalismo político tornou-se um jornalismo de recados, de bastidores, de fontes anónimas. É tudo muito pouco inocente entre políticos e jornalistas políticos". No decorrer da sua investigação Estrela Serrano pôde verificar que mesmo o principal órgão de soberania do regime democrático não consegue escapar à tentação do anonimato nas suas relações com os media. "A fuga e o off de record", escreve, "constituem canais informais usados pela Presidência da República, sobretudo no tempo de Mário Soares, através do seu porta-voz". Eanes foi o primeiro chefe de Estado a criar a figura, com Silva Costa e Joaquim Letria. Soares manteve-o na pessoa do chefe da casa civil, o que só por si diz da importância que atribuía à função. Sampaio, pelo contrário, prescindiu do cargo. "Com Soares", escreve Estrela Serrano, "a maior parte da informação fornecida pelo porta-voz era na base do off the record e da fuga. O porta-voz era conhecido como uma fonte credível, dado que os jornalistas conheciam a sua proximidade com o Presidente. Possuía amigos em jornais importantes com quem trocava informação, por exemplo sobre sondagens e bastidores da política, a qual era útil ao Presidente. Os jornalistas reconheciam- no como uma fonte preciosa e respeitavam o anonimato que ele exigia" (...). Devido à sua qualidade de Chefe da Casa Civil, o porta-voz de Soares possuía acesso privilegiado à informação produzida nas ‘regiões de rectaguarda’, o que o tornava um interlocutor privilegiado dos jornalistas. Organizava contactos informais regulares com jornalistas da área política dos principais media noticiosos, que recebia individualmente no seu gabinete, estabelecendo com eles relações pessoais de grande proximidade. O porta-voz de Soares privilegiava os contactos com editores e directores (...) dado que o repórter não tem poderes para escrever opinião nem para decidir a paginação e a extensão dos temas, o que é importante para as fontes. Pela mesma razão, os convites para contactos directos com o Presidente, como almoços, etc., eram para os editores e directores e raramente para os repórteres acreditados".
Ao longo da sua carreira Mário Soares sempre agiu por intuição, sublinha Estrela Serrano, embora trocando permanentemente ideias com membros do seu staff e com amigos, entre os quais se contavam alguns jornalistas. E quem eram eles, os chamados a partilhar com Mário e Alfredo a sua dor sobre o estado da nação, essa nação que se afundava no Centro Cultural de Belém e na ponte Vasco da Gama em vez de construir templos ao futebol? Estrela Serrano cita alguns nomes nas duas entrevistas que deu à GR: Baptista Bastos, Cáceres Monteiro, Henrique Monteiro, José Carlos Vasconcelos, Margarida Marante, Maria Elisa, Maria João Avillez, Mário Betencourt Resendes, Miguel Sousa Tavares, Teresa de Sousa, a falecida Vera Lagoa e Vicente Jorge Silva. Havia ainda vários correspondentes estrangeiros, do Brasil, Espanha, Estados-Unidos, Grã-Bretanha, França, e até proprietários de empresas de comunicação social, como Pinto Balsemão. Ao contrário, diz Estrela Serrano, o director do Expresso, José António Saraiva, "nunca cultivou relações com Belém. Esteve algumas vezes com o presidente mas nunca fez parte dos convidados regulares do dr. Soares. O Expresso foi um jornal de difícil acesso para Belém, apesar de Soares e Balsemão serem amigos. A ponte com o jornal era mais o Henrique Monteiro.". Um outro jornalista do semanário, Joaquim Vieira, chegava mesmo a provocar a cólera do chefe de Estado, como aconteceu certa vez no decorrer de uma entrevista em Belém. Soares, que a sua antiga assessora descreve como um político irresistível no trato com a gente dos media, que gostava de contar histórias e dizer graças, de uma grande bonomia, que no final das viagens sempre vinha agradecer a presença e o trabalho dos enviados especiais, que evoca sistematicamente a classe nos onze volumes das suas Intervenções para lhe agradecer a colaboração e o esforço, "também não ia muito à bola com José Eduardo Moniz, com quem pouco falava", e com Pedro Cid, que chegou a querer excluir da lista em que o seu nome aparecia indicado pela RDP para cobrir uma viagem do presidente ao estrangeiro, coisa de que foi dissuadido pela própria Estrela Serrano. "Soares não confiava muito no profissionalismo e na independência dos jornalistas", escreve a investigadora, que de viva voz precisa melhor este ponto de vista: " Ele desconfiava dos jornalistas porque projectava neles a sua própria experiência de uma imprensa partidária, de jornais lançados por partidos, como foi o caso d’ A Luta, que era um jornal do PS. Se um jornalista pedia uma entrevista perguntava logo de que partido era ele. Custava-lhe a perceber que houvesse jornalistas independentes. O seu contacto com os media era muito intenso mas também muito cuidadoso. Exigia sempre ver as entrevistas antes de serem publicadas. Quando havia certas notícias de que não gostava ficava furioso. Ele nunca era indiferente a uma notícia". Entrevistas à televisão ensaiava-as cuidadosamente com a sua equipa, que simulava uma grelha apertada de perguntas. Gostava de lembrar a Estrela Serrano que ela era os olhos e ouvidos dele e por isso a assessora tinha sintonizados em permanência no seu gabinete os três canais de televisão e várias estações de rádios. Contava com a ajuda de três consultores, um dos quais, Miguel Almeida Fernandes, deixou o lugar ainda no decorrer do primeiro mandato. "Preveníamos Soares muito bem de tudo o que se passava nos media. Nas viagens eu tinha a informação imediata de tudo o que era publicado, onde quer que estivéssemos. Se alguma informação corria mal a situação era imediatamente corrigida, encontrava-se sempre a pessoa certa para uma conversa com o jornalista, às vezes até o próprio Soares, ‘Então, pá, você...’. E no outro dia o tom do jornalista era completamente diferente. Soares tinha esse dom". E isto acontecia mesmo em comitivas que incluíam dezenas de enviados especiais, chegavam a ser trinta, quarenta, e até sessenta. "Os despachos dos jornalistas, do que falam e do que omitem, são combinados à mesa entre eles e até connosco, os assessores", diz Estrela Serrano. "É muito fácil controlar o que é enviado para as redacções. Cria-se um ambiente de família e ninguém quer ficar de fora da família. Nem é preciso dizer nada". Mas nunca aparecia um ponto de vista diferente? "Muito poucos jornalistas se conseguiam distanciar de Soares. É-me difícil identificar um ou outro que tenha sido crítico sistemático do dr. Soares. Você conhece-o? É um homem que tem uma qualidade humana que eu acho espantosa". Estrela Serrano descreve um episódio passado na presidência aberta em Bragança que diz bem dessas qualidades. Alguém no staff do presidente soube que o enviado da RDP para cobrir a campanha, Adelino Gomes, faz anos de casado no mesmo dia que o casal Soares. Disseram isso ao chefe de Estado. Este deu instruções para que em segredo mandassem vir de Lisboa a mulher do repórter e que em segredo fosse preparada uma mesa especial no hotel onde estava a comitiva para uma comemoração a quatro à hora de jantar.
O antigo presidente da República é um homem conhecido por cultivar uma osmose indefectível com os seus amigos, como numa página ímpar da diplomacia do mundo o demonstrou em Março de 1995 quando numa visita oficial à Tunísia na qualidade de chefe de Estado recebeu na embaixada portuguesa um fugitivo da justiça italiana, Bettino Craxi, acusado de quarenta crimes no âmbito da operação "Mãos Limpas", que levou ao assassinato de centena de pessoas em Itália, entre as quais os juízes Giovanni Falcone e Paolo Borsollino. E conhecido é também o seu culto pela história. "A minha convicção", diz a propósito Estrela Serrano, "é que toda a sua atitude política foi muito a pensar na história. Penso que a sua estratégia política era sempre de muito longo prazo, procurando acautelar um lugar na história. Repare: ele chegou a chefe de Estado com um governo do PSD e substituindo um presidente militar. E saíu com um governo do PS e um presidente socialista. O sonho de Sá Carneiro foi Soares que o realizou: um presidente, um governo e uma maioria. Concretizou os seus objectivos, o que num político significa que fez passar a mensagem". E a mensagem quem a passa, já se sabe, são os jornalistas. Soares de resto, lembra a sua antiga assessora, dizia muitas vezes que gostaria de ter sido jornalista. Dava um chefe de redacção capaz de derrubar governos, ao que parece.
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BIBLIOGRAFIA SUMÁRIA PRÉ-ESCOLAR ESPECIALMENTE DESTINADA A CANDIDATOS A JORNALISTAS:
"The secret life of J. Edgar Hoover", Anthony Summers, G.P.Putnam's Sons, 1993.
"Mossad", Claire Hoy e Victor Ostrovsky, Presses de la Cité, 1990.
"Les Frères Invisibles", Ghislaine Ottenheimer e Renaud Lecadre, Albin Michel, 2001.
"Do Lado de Dentro - uma vida na Opus Dei", Maria del Carmen Tapia, Publicações Europa-América, 1993.
"Mafia, Politica e Affari", Nicola Tranfaglia, editorial Laterza, 1992.
"Desmantelar a América" e "Democracia e Secretismo", ambos de Oswald Le Winter e ambos da Europa América, 2001 e 2002.
"A Terrível Impostura" e "O Pentagate", ambos de Thierry Meyssan e ambos editados em português pela Frenesi e ambos de 2002.
"Os Senhores da Guerra", Thierry Meyssan, trad. de jpp, frenesi, 2002.
"Dirty Politics", Kathleen Hall Jamieson, Oxford University Press, 1992.
"Why Do People Hate América?", Ziauddin Sardar e Merryl Wyn Davies, Icon Books, 2002
"Império", Gore Vidal, Editorial Presença, 1987.
"Contos proibidos - histórias de um PS desconhecido", Rui Mateus, Dom Quixote, 1996.
"As presidências abertas de Mário Soares", Estrela Serrano, Minerva Coimbra, 2002.
"The New Military Humanism - lessons from Kosovo", Noam Chomsky, Pluto Press, 1999.
"Nova Iorque 11 de Setembro", Noam Chomsky, Caminho, 2001.
"A tirania da comunicação", Ignacio Ramonet, Campo das Letras, 1999.
"Sobre a Televisão", Pierre Bourdieu, Celta Editora, 1997.
"Homo Videns", Giovanni Sartori, Terramar, 2000.
"Les Nouveaux Maitres du monde et ceux qui leur résistent", Jean Ziegler, Fayard, 2002.
"O mundo sob escuta", Duncan Campbell, frenesi, 2001.
"L'horreur économique", Viviane Forrester, Fayard, 1996
"No Logo - o poder das marcas", Naomi Klein, Relógio d´Água, 2002.
"The Holocaust Industry", Norman G. Finkelstein, editora Verso, 2000 ("A Indústria do Holocausto", Antígona, 2002, trad. de Ana Barradas).
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